Viagens para fora, caminhos para dentro. Uma conversa sobre viagens que nos transformam

Este é o resumo da minha conversa com a Paula Iglésias no canal Dicas da Farmacêutica

Fui convidada pela Paula Iglesias para o último direto do Dicas da Farmacêutica antes da pausa de verão. Foi uma conversa fluida onde falámos sobre a importância de sabermos parar, sobre o meu percurso e, acima de tudo, sobre como certas viagens e a prática do Yoga têm a capacidade de transformar a forma como vivemos.

Para quem não conseguiu assistir ao vivo ou para quem prefere ter os pontos principais por escrito, deixo aqui o resumo detalhado do que estivemos a conversar.

1. Da Matemática e do Mundo Corporativo ao Yoga: A Minha Mudança de Vida

A minha mudança não foi tão planeada como eu gostaria que tivesse sido, mas a verdade é que o "bichinho" da insatisfação com a vida corporativa já lá estava.

Eu estudei Matemática Aplicada e tinha a vida para a qual fui educada a ter. A grande viragem aconteceu quando fui para Moçambique fazer uma consultoria na área da restauração. Como a minha professora de Yoga viajava muito e eu queria aprender a praticar sozinha e faltava-me a filosofia, o saber o que está além do corpo e do tapete de que vemos no Instagram, fui à Índia fazer o curso de formação de professores de 200 horas (um retiro intensivo de 21 dias).

Quando regressei a Maputo, disseram-me que havia uma pandemia global. Uma semana depois, como os restaurantes fecharam todos, fiquei sem trabalho.

Com o curso acabado de tirar e com anos de experiência como praticante, as pessoas à minha volta começaram a pedir-me aulas online: "Por favor, dá-nos aulas, os ginásios fecharam!". Eu nem sabia bem preparar uma aula, mas comecei. Achava que era uma brincadeira de poucas semanas até tudo voltar ao normal... mas a brincadeira virou paixão. Quando o Covid terminou, não voltei ao mundo corporativo.

Hoje, dou aulas, trabalho com empresas e organizo retiros, que se tornaram uma paixão enorme porque juntam o Yoga ao meu amor por viajar.

2. A Ciência por Trás dos Meus Retiros: Os Dois Tipos de Retiro e a Viagem Itinerante

A Paula referiu (e muito bem) que por trás da organização de um retiro há quase uma "ciência" e um percurso desenhado para que as pessoas vivam uma experiência de autoconhecimento. E sim, uso muitas folhas de Excel, o meu bichinho da Matemática continua cá!

Na verdade, eu faço dois tipos de retiros:

Retiros Imersivos (Num só local)

Ficamos o tempo todo no mesmo sítio (por exemplo, numa casa gira ou hotel em Bali). O dia todo é dedicado a descansar e a fazer práticas imersivas no mesmo local. Quem quiser passear, vai no dia livre ou nuns dias antes/depois.

Retiros Itinerantes (O meu formato de eleição)

Comecei com o primeiro grande no Sul da Índia (e agora Peru, Bolívia, Chile, Moçambique...). Nestes retiros, nós vamos de local em local. Exploramos a cultura, a comida, as pessoas, a religião, os monumentos, o caos e a loucura de andar de um lado para o outro de comboio ou autocarro.

E por que razão este formato é tão transformador?

Porque essa correria e esse "caos" de viajar representam exatamente a loucura do nosso dia a dia. Ao trazer a prática espiritual e física para o meio dessa rotina agitada durante 14 dias, as pessoas levam um presente gigante para casa: percebem que, mesmo que haja confusão na rotina delas, é possível manter a prática viva.

Desmistifica-se a ideia rígida de que "tenho de praticar todos os dias 1h30 e meditar 1 hora". Se um dia temos de apanhar um comboio de manhã e não dá para praticar, não faz mal. Faz-se ao fim da tarde, adaptado. O Yoga não é rigidez; é consistência combinada com flexibilidade e adaptação à vida real.

3. Mitos e Verdades: Desmitificar o Yoga e as Viagens em Grupo

Respondemos a várias perguntas e dúvidas que fomos recebendo ao longo dos dias:

"Nunca fiz Yoga, posso ir num retiro?"

Completamente. O Yoga é extremamente democrático. Cada postura tem milhares de variações. No retiro para onde vou agora (Peru, Bolívia e Chile), vão duas senhoras com mais de 70 anos e vai gente mais nova. As variações adaptam-se a todos. Eu própria, que sou professora, há dias em que estou mais cansada ou tensa e não faço a ponte completa, faço outra variação e who cares?

A rigidez e o julgamento não estão no corpo, estão na cabeça. É na mente que precisamos de começar a ganhar flexibilidade.

"Devo ir sozinha(o)? E a partilha de quartos?"

Muitas pessoas perguntam se vão sós e se têm de partilhar quarto. Há sempre a opção de quarto single ou partilhado. Mas o medo de ir sozinho é apenas o nosso cérebro a tentar manter-nos na zona de conforto. O cérebro só mantém a calma perante o igual que já conhece; perante o diferente, entra em stress.

Lembro-me de um retiro em que chegámos à guesthouse e uma participante disse logo: "Eu não vou conseguir dormir com esta pessoa porque ela liga o ar condicionado e eu não consigo!". Eu disse-lhe: "Calma, vamos jantar todos, vamos conversar". Aos poucos, as resistências caem. No fim dos retiros, o que vejo invariavelmente são pessoas de culturas, idades, religiões e nacionalidades completamente diferentes a abraçarem-se com um carinho enorme.

4. Histórias Reais de Transformação: Pequenas Mudanças, Grandes Impactos

A Paula perguntou-me quais foram as experiências mais transformadoras a que assisti nos meus retiros. Às vezes as pessoas esperam ouvir coisas mirabolantes ou xamânicas, mas a transformação acontece nas coisas simples:

  • A história do açúcar: Uma aluna minha contou num segundo retiro que, no ano anterior, tinha aprendido no meu retiro a deixar de comer açúcar. Ela reduziu drasticamente o consumo, o que mudou completamente a entrada dela na peri-menopausa: passou a dormir muito melhor, a ter menos stress e uma vida muito mais tranquila.

  • A história das relações: Na Índia, uma participante que estava a passar por uma fase muito difícil no casamento (com filhos pequenos e muita carga) esteve a conversar connosco. Falámos abertamente sobre relações, sobre o porquê de culparmos sempre o outro e não olharmos para dentro. Quando ela voltou para casa, mudou a sua dinâmica com o marido e hoje parecem estar a viver um segundo casamento.

  • Curar a solidão da luta: Falamos de temas difíceis e tabus, como a perda de bebês ou desafios relacionais. Ao partilhar a sua história com estranhos num ambiente seguro, a pessoa percebe que a sua luta é a luta de muita gente. Tira-se o "elefante da sala", perde-se a vergonha e o peso gigante desaparece.

5. O Corpo como Portal, o Diálogo Interno e a Arte de Parar

Falámos também sobre como a prática no tapete afeta diretamente a nossa saúde mental e a nossa vida fora dele:

A armadilha do diálogo interno

O movimento físico do Yoga liberta hormonas e desbloqueia a energia estagnada, mas também é muito importante o trabalho mental. A forma como falamos connosco é crucial. Se dizes a ti própria "eu não sou capaz", "eu não consigo" ou "não sou flexível", essa mensagem negativa fecha o teu corpo.

Pensamento ⟶ Emoção ⟶ Ação ⟶ Resultado

Um pensamento gera uma emoção que se manifesta no corpo e essa emoção gera uma ação ou uma conversa que tem um determinado resultado.

Quando quebras esse ciclo no tapete e consegues fazer algo que achavas impossível, dizes a ti mesma: "Se eu consegui isto aqui, consigo tudo na vida!".

Meditar e acalmar o Monkey Mind

Muita gente me diz: "Eu não consigo meditar porque sou muito agitada". E eu respondo: "Isso é o mesmo que dizeres que não vais para as aulas de natação porque não sabes nadar!". É precisamente por teres a mente agitada (o monkey mind) que precisas da prática. Meditar não é sobre não ter pensamentos, é sobre aprender a treinar a mente.

A importância do Savasana e de não fazer nada

No final de cada prática de Yoga, deitamo-nos durante uns minutos sem fazer nada (Savasana). No início, quem vive no ritmo acelerado do dia a dia diz: "Se não é preciso fazer nada, vou-me embora".

Mas saber parar e não fazer nada é das coisas mais importantes da nossa vida. Vivemos num mundo com tanta ansiedade digital e correria que roubamos horas ao sono e vivemos com o cortisol em altas. Fazer micro-pausas e dar tempo ao corpo para integrar o que viveu é a única forma de sairmos do piloto automático (reagir) e passarmos a viver com consciência (responder).

O Autocuidado é a Base

Como a Paula tão bem lembrou, o autocuidado assenta em pilares simples mas poderosos:

Ame-te, respeita-te, cuida-te, mexe-te, nutre-te e revigora-te.

E é precisamente isso que procuramos viver, passo a passo, tanto nos meus retiros pelo mundo como na prática diária no tapete.

Obrigada à Paula Iglesias pelo convite e por esta conversa tão boa!

(Se queres saber mais sobre os meus próximos retiros itinerantes ou sobre as minhas aulas de Yoga, explora o site ou entra em contacto comigo!)

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